True nature;
O céu vermelho sangue, em seus tons vibrantes de fogo, abraça o dia que começa vagaroso. Este céu celestial – que não fora criado para humanos, para os olhos cegos destes seres que passam pela vida como se ela fosse uma reta, onde todos correm frenética e histericamente para linha de chegada. Sente-se abençoada pelos deuses pela visão de natureza maravilhosa e, ao mesmo tempo, amaldiçoada e impotente, presa em sua condição humana e capitalista. Ela sente o vento da manhã emaranhando seus cabelos ruivos e afagando sua face, levemente, enquanto estica seus braços para abrir a porta de vidro. É uma aurora linda, de adoráveis sons, cores vivas e vidas agitadas. No cimento da calçada seus pés parecem mais pesados que o normal. Quisera sentir novamente o chão de terra, afagando seus pés descalços. A rotina tirava seu sono, deixando em sua face grandes olheiras roxas. Ninguém reparava nestes detalhes, exceto talvez o motorista do ônibus, de quem ganhava um belo sorriso matinal de bom dia. As semanas se arrastavam, enquanto os minutos se transformavam em horas e as horas transformavam-se em dias. Queria fazer tanto, queria conquistar o mundo com afeição, quebrar padrões. Entretanto, aquele confinamento no escritório sem janelas forçava-a a beber mais café do que deveria e preocupar-se com dores nas costas e outras coisas sem sentido. Horas infindáveis na frente daquela máquina, em redes sociais, absorvendo informações, em sua maioria, inúteis. Um desperdício de vida. Que desperdício de vida! Ainda assim, era sua vida. E resmungava para si mesma, como de costume, sobre como as pessoas eram absurdamente ignorantes, pois não sabiam ainda o motivo de sua depressão. Percebia, no entanto, com certa dificuldade, que se encontrava em meio a estas pessoas, e agora ressentia pela sua vergonha, de ter olhado diretamente aquele céu majestoso do qual não era digna de conhecer.
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