Midnight grace

O relógio da cozinha não engana, fora dado pela sua avó e ainda bate a cada dez minutos, o que significa que é quase meia noite. Ela encara o teto, estirada na cama bagunçada onde remexera os lençóis em grandes montes para abraçar, na tentativa de chamar tão logo o sono, que insistia em faltar. A última semana concluíra com dificuldade, suas olheiras confessavam os crimes que havia cometido, seu coração estava em pedaços. O telefone não tocava mais como de costume, há esta hora, imaginava, não estaria sozinha. As lágrimas haviam secado e não havia mais a que suspirar, o que estava feito estava feito. Por pior que parecesse, ela precisava sair daquele lugar, antes que as lembranças a sufocassem.


Abriu seu guarda-roupa, reparou naquele vestido desbotado que tanto gostava, inundado de desgostos, guardou-o novamente. Achou em meio daquelas roupas desgarradas uma saia preta, que nunca havia usado. Ele nunca a levara para sair à noite, pensara. Arrumou-se como não fazia a tempo, pintou os olhos de preto, os lábios de vermelho e calçou aquele salto intacto. Estava pronta, faltava coragem. Respirou fundo, contou até três. Fechou rapidamente a porta que dava para escada, trancou-a, e saiu para desvendar a noite que caia lentamente sobre a cidade.


Em meio a passos incertos, parou naquele bar que tanto comentavam. Sentou numa mesa do lado de fora, sozinha. O garçom chegou à mesa, ela pediu um daqueles drinks de nomes americanos, coloridos, enfeitados com frutas ou guarda-sóis. Pensou em como aquilo era fútil e, ao mesmo tempo, tão encantador. Sofreu por não ter feito nada disso antes. Tudo a machucava, a música que tocava ao fundo, sua preferida, que nunca tivera a chance de compartilhar com ele. Ele não gostava de suas músicas, achava patético, não tinham a bagagem dos clássicos. “Que estúpido, como me deixei enganar”. Outro drink.


Algumas horas haviam passado desde que ela sentara naquela mesa. Agora, começara a notar seu redor, com olhos quase fechados. Amigos rindo, garotas despretensiosas, garotos tão novos, como são novos! Tudo parecia tão interessante para eles. Riu sozinha. Na mesa ao lado, olhos castanhos profundos cativaram sua atenção. Brincava com a borda do copo de seu coquetel colorido, sem querer, tentando chamar a atenção daqueles olhos. Quando se encontraram, um calafrio. Um longo momento, a espera, a novidade, o inesperado. Imaginou aqueles lábios finos, suaves. Pensou em aproximar-se. Tanta coisa passou pela sua mente naquele minuto! Mas o minuto passou. Os olhos castanhos se viraram para a outra garota, que ocupava agora a banqueta ao seu lado.


Mas o gosto daquele minuto ficou, como que marcasse o fim daquela tortura. Esta noite, dormiria tranqüila. Estava se apaixonando novamente pelos problemas.

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