Ensaio
Não dormira noite passada. Seus olhos castanhos amendoados eram a perfeita visão do infinito que carregamos em nossa alma, de dúvidas - da solidão inerte, da mentira que somos e de que não abrimos mão. Não possui a beleza das outras moças de sua idade, sua face era consideravelmente pálida, falava demais. Quando se exaltava era possível enxergar os travessões e reticências de suas frases. Possuía um talento invejável, porém, para cortejar as épocas passadas. Citava Shakespeare como se fossem conterrâneos – ah, o sonho! Passeava pelas ruelas da cidade admirando a inocência e ignorância daqueles jovens, sentados em grupos discutindo assuntos tão banais quanto o tempo – santos estes jovens, que nunca conheceram a filosofia de Platão! Nunca saberão a respeito do amor, que nada mais é do que a pura admiração. E a admiração é frágil, finda como tudo neste mundo, feito de sombras. A admiração pela beleza se desfaz com maior facilidade, a pelo caráter é uma ilusão e a pelo conhecimento é tão somente passageira, como as frases que se prendem nas folhas de papel. Assim, pensava, era fácil admirar aquela inocência, aquela infantilidade com que os jovens tratavam dos assuntos diários. Tratava-se de algo que ela nunca havia provado. Hoje em dia, dizia, é muito difícil fazer amizades. As pessoas não suportam falar comigo! Quero discutir sobre filosofia, arte, o cotidiano desgastado, mas não há uma alma disposta a escutar meus ensaios. Não há porque escrever mais best sellers, não há razão em escrever novamente sobre crônicas juvenis ou biografias de artistas populares. Ah, como gostaria de ter conversado com os grandes pensadores, Goethe teria sábias palavras para dividir – ainda que eu fosse tão somente uma mulher desajeitada em meio aqueles grandes homens. Mas ela era apenas uma sombra, entre tantas outras, que nunca realizaria seu desejo de possuir alguém com quem dividir seus pensamentos. Era tão somente ela e suas palavras, palavras que muitas vezes também falhavam em exprimir tudo o que sentia. Antes fossem todas as palavras, mas as que conhecia também não eram o bastante.
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